• Inocêncio Oliveira

Os Sinais dos Tempos estão Aí

A soma dos fatos sociais acaba promovendo, ao olhar do cidadão brasileiro, uma visão embaçada, como se estivéssemos em meio a brumas. O fato é que há uma riqueza de elementos a serem analisados para que concluamos que é chegada a hora. Afinal, hora de quê, para quê?


Tudo parece ter começado há bem pouco tempo. Em 2011 as pessoas ocuparam as ruas, com atitudes improváveis e inesperadas, enfrentando ditaduras estáveis por dezenas de anos, começando pelo norte da África, como Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen e Síria, parece-nos que tais coragem e ousadia disseminaram-se no mundo, criando então um fato raro. Chegaram aos Estados Unidos, Bósnia, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra e Brasil.

Cidades importantes como Nova York, Madri, Barcelona e outras foram palco de acampamentos e protestos contra a volúpia dos bancos, que conduziu o mundo à crise de 2008. O movimento expandiu-se para greves na Espanha e Grécia e revolta nos subúrbios de Londres, chegando também ao Chile e a manifestações na Avenida Paulista, em São Paulo.


Tais fatos emergiram de uma consciência solidária e recíproca, resultante do uso da multimídia disponível para a grande população com acesso, amplamente compartilhado, às redes sociais e à internet.

Tais movimentos têm a curiosidade e a beleza de uma dinâmica que não tem pertencimento. Não há um autor preferencial, uma autoridade centralizante, ou seja, uma liderança responsável pelos acontecimentos, como é próprio de uma rede.


Uma rede, no seu mais estrito conceito, é descentralizada, porquanto as mensagens poderão se originar de qualquer “nó”, disparando para a malha, sem caracterizar a autoria.


Assim, torna-se difícil, quando não impossível, diagnosticar o ponto de deflagração. O relevante mesmo é que a origem de toda a dinâmica social não é física nem digital. É mental, quase espiritual. Por vezes, inconscientemente, o movimento nasce de um motivo ingênuo e útil, e de aceitabilidade social e política. A um exame mais acurado pode-se constatar razões mais profundas para explicar toda a força, energia e coragem, com que tais manifestações surgem a ponto de um enfrentamento policial.


O exemplo ocorrido em São Paulo há bem pouco tempo, que se justificava por centavos nas tarifas do transporte público, trazia em si uma justificativa social e politicamente aceitável, para explicar o transtorno provocado. O fato é que esta justificativa tomou conta do país. Nas metrópoles, nas cidades médias e pequenas. Estabeleceu-se uma espécie de cultura de reivindicação dos interesses públicos, quer de um bairro, de uma comunidade ou de uma cidade. Expandiu-se inclusive para os interesses de categorias profissionais, quer dos serviços públicos ou da iniciativa privada.




As autoridades, por superficialidade ou por esperteza, aceitam e tratam como verdade os argumentos aparentes com que chegam os movimentos. Destorcem os fatos pela sua interpretação. O autoengano parece dar-lhes uma certa tranquilidade, como se tivessem se livrado de mais um fato social. Mal se tranquilizam e um novo fato surge, de natureza diversa, com motivos diferentes e formatos inovadores. À semelhança de um vírus que evolui e se transmuta para se autoproteger, ante os medicamentos aplicados. As autoridades, agora atônitas, dão-se conta de que não podem estabelecer controle sobre os fenômenos emergentes.

Mais recentemente surgiram os “rolezinhos”. As autoridades interpretam como sendo a falta de oportunidades de lazer, sobretudo em grandes cidades. Ainda que isso possa acontecer, parece-nos a manifestação de um fenômeno há muito esquecido: “... eu existo!!!” Já não é um pedido. É um grito. É uma exigência, pois deixou de ser “eu existo”, para ser “nós existimos”.


Entretanto foi dado ao movimento o seguinte significado: é um movimento contra o preconceito e pelo direito de ir e vir dos jovens da periferia. Ainda que o argumento proceda, é insuficiente para explicar o fenômeno. E as autoridades desconcertadas planejam mecanismos de evitação.

A questão para as autoridades consiste em descobrir e aplicar estratégias de controle a tudo que está por chegar, mas a situação política e social brasileira não encontrará soluções em curto prazo, podendo tomar decisões de imediato. Stephen R. Covey afirma: “a maioria das pessoas acredita que sua vida seria outra coisa, se a tivesse sob controle. Mas a verdade é que nós não o temos, os princípios são que os têm. Podemos controlar nossas opções, mas não as consequências delas.”

Há algum tempo nossos governos não semeiam princípios saudáveis, não dão exemplos notáveis, não criam seguidores a autênticas lideranças. Os fatores aí estão à vista: educação depauperada, a criminalidade infantil, juvenil e adulta disseminada e impune, o tráfico de drogas, a contradição entre o alto índice de corrupção e a alegação de falta de verbas, a degradação de instituições que deveriam ser exemplares e que surgem na mídia com relativa frequência, expondo suas condutas vergonhosas. Essas citações encontram-se sucintas, mas poderiam ser fácil e abundantemente arroladas.

Tais movimentos são sintomas de exaustão que encontraram uma forma de vazão mediada por canais de convocação, sem a possibilidade de controle. Como não se pode curar ou reverter tais causas de imediato, o Brasil e seus governos passarão por amargas experiências de descontrole e desobediência.

Obra de Lu Paternostro


O que nos preocupa são as possibilidades que o caos social possa oferecer, para justificar um governo forte e centralizador, álibi utilizado em diferentes situações passadas.


Fato é que são abundantes os sinais de que é chegada a hora do “ponto de mutação”.



Texto elaborado por Inocêncio Magela de Oliveira para a Revista Conceito em 19/07/2012.

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